Dominick A. Maia Tanner chega ao Brasil em busca de artistas e curadores para integrar o programa de residência em Luanda

No ano em que Angola celebra os 50 anos de sua independência, o coordenador do Angola AIR (Artist in Residency), Dominick A. Maia Tanner, chega ao Brasil em setembro para visitar a feira de arte ArtRio e ampliar sua pesquisa sobre a produção brasileira, estabelecendo novas conexões com artistas e curadores interessados em desenvolver pesquisas e projetos em Angola.
Criado em 2018, em Luanda, o Angola AIR promove residências artísticas para artistas não angolanos, criando condições para que desenvolvam pesquisas e novos trabalhos em diálogo com a cena cultural local. Ao longo de oito anos, o programa recebeu 25 artistas, sendo 12 brasileiros, fazendo do Brasil o país que mais enviou participantes à residência.
“Brasil e Angola são duas margens de um mesmo Atlântico Negro, com memórias, culturas e identidades que continuam a dialogar”, afirma Maia Tanner.
A seleção dos residentes não se baseia apenas em currículo ou reconhecimento no circuito artístico, mas na capacidade de cada artista de estabelecer uma relação verdadeira com Angola, a partir de práticas consistentes, curiosidade, abertura ao diálogo e disposição para investigar o país para além de uma perspectiva turística, encontrando na experiência uma dimensão relevante para a própria pesquisa.
Mulambö, artista nascido e criado em Saquarema, no litoral do Rio de Janeiro, apresenta uma produção que investiga relações entre o íntimo e o coletivo, o local e o global, e as narrativas do Atlântico. Para ele, a experiência na residência foi fundamental para aproximar de maneira orgânica as cenas artísticas de Angola e do Brasil.

“A experiência na Angola AIR foi fundamental para a minha pesquisa por justamente aproximar a cena de arte de Angola e Brasil de uma forma muito orgânica. No meu caso, que pesquiso muito as relações atlânticas, foi muito rica a troca não somente com artistas de Angola, mas também de outros países do continente africano”, comenta.
Para ele, a experiência também possibilitou uma troca de conhecimentos entre contextos marcados por histórias de violência e resistência. “Essa troca é importante para que a gente se aproxime daqueles que têm histórias parecidas com as nossas, sofremos muitas violências semelhantes e temos muito o que aprender um com o outro. É muito gratificante poder levar um pouco da minha experiência como artista para um cenário que está amadurecendo neste momento.”
Ao final das residências, as obras produzidas pelos artistas passam a integrar a coleção particular de Maia Tanner, a Atlantic Narratives Contemporary Art (Anca). Para o coordenador do Angola AIR, o conjunto funciona como um arquivo vivo dos encontros produzidos pelo programa e reúne testemunhos de oito anos de intercâmbio artístico.
A intenção é que esse acervo também percorra o caminho inverso ao realizado pelos artistas residentes. Maia Tanner planeja apresentar o conjunto no Brasil quando o programa alcançar a marca de 20 artistas brasileiros participantes. O projeto deverá ser acompanhado ainda da publicação de um livro, para o qual o coordenador já vem reunindo textos de curadores angolanos e brasileiros.
A circulação entre os dois países ganha um significado especial em 2026. O Brasil foi o primeiro país do mundo a reconhecer a independência de Angola, em 11 de novembro de 1975. Para Maia Tanner, o marco histórico deve servir não apenas à celebração do passado, mas à construção de uma agenda de futuro.
“É impossível contar a história contemporânea de Angola sem falar do Brasil, assim como é impossível compreender plenamente o Brasil sem olhar para Angola. Ao celebrarmos o 50º aniversário da independência, acredito que o mais importante é deixar de olhar para essa relação apenas pelo prisma histórico e começar a construir uma relação de futuro: mais intercâmbio cultural, mais circulação de artistas, mais conhecimento, mais investimento e mais reflexão e produção conjunta”, analisa.
A presença de Maia Tanner no ArtRio 2026 faz parte desse movimento de construção de novas conexões. Para ele, a cena artística angolana atravessa um momento de crescimento, marcado pelo surgimento de novos artistas, galerias, colecionadores e iniciativas, entre elas a Luanda Feira de Arte, a Noite das Artes e o próprio Angola AIR.
“Quero que a minha presença no ArtRio contribua para criar pontes concretas e consistentes: continuar a trazer artistas brasileiros para Angola, mas também levar artistas angolanos para o Brasil e fazer com que o Atlântico deixe de ser uma distância e passe a ser uma plataforma de encontro.”

MULAMBÖ | Artista
Nasceu João (1995) e cresceu Mulambö na Praia da Vila, em Saquarema, Rio de Janeiro, Brasil, onde reside e trabalha até hoje. Ao utilizar pinturas, objetos, bandeiras, vídeos e instalações como mecanismos de reinvenção de mundos que circulam entre o íntimo e o coletivo, o local e o global, Mulambö assume-se como artista atlântico e afirma que não há museu no mundo como a casa da nossa vó.
Participou de exposições como Complexo Brasil (2025), na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, Portugal; Direito à Forma (2023) e Quilombo: Vida, Problemas e Aspirações do Negro (2022), em Inhotim; Dos Brasis (2023), no Sesc Belenzinho; Histórias Brasileiras (2022), no MASP; Um Defeito de Cor (2022) e Casa Carioca (2020), no Museu de Arte do Rio; Enciclopédia Negra (2021), na Pinacoteca do Estado de São Paulo; Brasil Futuro (2023), no Museu Nacional da República; e SWEAT (2021), na Haus der Kunst, em Munique, Alemanha.
Realizou as exposições individuais O Canto da Vila (2025), no Museu da República, Rio de Janeiro; Saquarema (2024), na Portas Vilaseca Galeria; Punta de Lanza (2023), na Homesession, em Barcelona, Espanha; O Penhor Dessa Igualdade (2022), no Centro Cultural São Paulo; Out of Many, Muchos Más (2021), na Das Schaufenster, em Seattle, Estados Unidos; Tudo Nosso (2019), no Museu de Arte do Rio; e Prato de Pedreiro (2019), no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica.
Suas obras integram coleções de instituições como Acervo da Laje, Inhotim, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu de Arte do Rio, MAC Niterói e Museu de Arte de Britânia.
ANGOLA AIR
O Angola AIR (Artist in Residency) é um programa de residência artística criado para promover o diálogo, a pesquisa e a troca entre Angola e os países de origem dos artistas participantes. A iniciativa oferece condições para que artistas desenvolvam pesquisas e/ou novos trabalhos em Angola, em conexão com seus percursos e narrativas artísticas.
Com sede em Luanda, o Angola AIR proporciona aos residentes uma imersão na cena artística local, estimulando encontros, conversas e intercâmbios com artistas, curadores, galerias, instituições e colecionadores. Durante a residência, os artistas têm a oportunidade de conhecer espaços culturais e profissionais do setor, além de receber visitas e trocas com agentes da arte. Mais do que um espaço de criação, o Angola AIR busca proporcionar aos artistas uma experiência de escuta, descoberta e inspiração, afastada das rotinas e dos limites tradicionais de seus contextos de origem. Localizado no centro de Luanda, o atelier da residência está próximo de museus, galerias, coleções particulares, espaços alternativos e locais de artes cénicas, favorecendo uma imersão na diversidade cultural e artística da cidade.
DOMINICK A. MAIA TANNER | Coordenador
Dominick Alexander Maia Tanner é curador, produtor, galerista, coordenador de residências artísticas e colecionador britânico, português e angolano. Nascido em Londres, em 1973, vive em Angola desde 2009, onde desenvolve projetos pioneiros nas áreas de arte e cultura e atua como coach e mentor.
Desde 2016, dedica-se especialmente ao desenvolvimento de um mercado de arte local formal, com boas práticas e incentivo à formação de uma base de colecionadores em Angola. É fundador e responsável pelo ELA (Espaço Luanda Arte), criado em 2016, que promove exposições, pesquisas, debates e encontros em torno da memória, da identidade e da arte contemporânea angolana.
Em 2018, criou o Angola AIR, programa de residências artísticas voltado para artistas não angolanos, promovendo intercâmbios e pesquisas intra e intercontinentais, além do turismo e da diplomacia cultural. Até o momento, o programa já recebeu 25 artistas, a maioria africanos ou afrodescendentes, sendo 12 deles brasileiros.
Ao longo de sua trajetória, produziu mais de 130 exposições individuais e coletivas e criou plataformas como Jovens Artistas Angolanos (Jaango), Vidrul Fotografia e Vidrul Convida. Em 2024, criou a Luanda Feira de Arte, que chegou à terceira edição, em 2026, com 20 expositores.